Estados Unidos: cada vez mais influentes na economia global?

Estados Unidos: cada vez mais influentes na economia global?

 Os Estados Unidos mantêm o estatuto de economia líder e têm vindo a reforçar essa posição. Os números são inequívocos. Segundo a Bloomberg, o PIB do país sobe a um ritmo anual de 3%, colocando a riqueza nacional acima dos 19 triliões de dólares, representativos de quase 25% do PIB mundial. O desemprego está em mínimos históricos, abaixo dos 4%, e a taxa de participação no mercado laboral tem vindo gradualmente a aumentar.

Um conjunto de fatores culturais – flexibilidade, dinamismo e maior capacidade de inovação – têm ditado o sucesso da economia americana no longo prazo. No curto prazo, a perspetiva de implementação de incentivos fiscais adicionais (já depois da massiva redução de impostos após a tomada de posse por Donald Trump), nomeadamente a eventual intenção de avançar com um plano de infraestruturas na ordem dos 1,5 triliões de dólares, poderá continuar a impulsionar o crescimento económico norte-americano.

Enquanto a Europa se entretém com questões políticas desde meados de 2010 – naquele momento com a Grécia e mais tarde com o acrónimo depreciativo dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) –, na época atual a instabilidade política gira à volta da polémica implementação do orçamento italiano e da complexa negociação em torno do disruptivo Brexit. A Europa vai assim perdendo peso económico e geopolítico na esfera global, ao contrário da manutenção dos Estados Unidos como economia líder desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Desde esse momento o gigante americano foi confrontado com a ascensão da Rússia durante a Guerra Fria, o potencial económico e tecnológico do Japão no final da década de 90 e a ascensão recente da China no xadrez geopolítico à escala global. Mas foi a cultura peculiarmente divergente de fazer política na Europa e nos Estados Unidos que lhe conferiu essa hegemonia, cujo expoente máximo nos remete ao sloganda antiga campanha presidencial de Bill Clinton no já distante ano de 1992, materializada na expressão It’s the economy, stupid!.

O berço do mercado de capitais

Por falar em liderança, é também nos Estados Unidos que encontramos o mercado de capitais mais desenvolvido do mundo. Os ativos financeiros cresceram dez vezes mais do que o PIB desde o início do atual decénio, representando hoje praticamente 50% do mercado de capitais mundial.

O dinamismo do mercado de capitais nos Estados Unidos é de tal maneira significativo que em média realizam-se entre uma e duas IPO (Initial Public Offering) por semana. Por sua vez, na Europa as empresas ainda estão muito dependentes do financiamento tradicional via setor bancário.

Esta situação, em conjunto com a crise bancária sincronizada com a crise de dívida soberana na Europa, contribuiu para a contínua perda de fulgor da Europa na cena global. Não é por acaso que, fora do continente europeu, as pessoas tendem a olhar para a Velha Europa como o “museu do mundo”.

Moeda forte e taxas de juro em alta

A liderança económica reflete-se também numa moeda forte – instrumento esse que serve de base à fixação de preços de produtos como o aço ou o petróleo – e que é a moeda de reserva de eleição dos bancos centrais: 30% das suas reservas são em dólares; o euro representa apenas 13 a 14%. O objetivo de diversificação das moedas por parte dos bancos centrais tem vindo a ser pouco conseguido nos últimos anos.

 

Em alta e sem precedentes nos últimos dez anos estão também as taxas de juro. As de longo prazo (10 anos) nos Estados Unidos fixam-se nos 3,25% face aos 0,5% da Alemanha, pelo que o diferencial de taxas de juro tem atingido máximos históricos face ao decoupling económico e monetário entre os dois principais blocos económicos.

Continua a verificar-se espaço para as taxas de juro subirem nos Estados Unidos, sobretudo no curto prazo, mas antecipa-se que a taxa de referência da Fed Funds não deverá ir além do intervalo 3,5%-4% no atual ciclo de expansão; já na Europa antecipa-se algum espaço para a subida de taxas de juro, ainda que essa trajetória crescente só deva iniciar-se no final de 2019, provavelmente já após a substituição de Mario Draghi no comando do Banco Central Europeu.

 

 

O protecionismo que não protege

O governo de Donald Trump colocou em marcha uma política comercial protecionista, sobretudo no que respeita a importações vindas da China. Os números são evidentes:

Total de impostos sobre as importações por região:

  • Europa: 3 mil milhões de dólares
  • Canadá: 12 mil milhões de dólares
  • México: 3 mil milhões de dólares
  • China: 250 mil milhões de dólares 

 

Como existe um défice comercial entre os Estados Unidos e a China, esta tem menos capacidade de acompanhar a carga fiscal que a Administração Trump lhe tem aplicado. Isto não significa, no entanto, que os chineses não tenham outras opções de resposta geopolítica, uma vez que são os principais detentores de dívida norte-americana.

Poderão optar por vender U. S. treasuries em mercado, o que acarretaria uma subida das taxas de juro nos Estados Unidos. A situação poderia, contudo, ser contraproducente para a própria China, uma vez que essa subida e a apreciação do dólar americano poderiam implicar dificuldades adicionais para a China gerir a sua balança de capitais.

Ainda que possa ser potencialmente mais fácil ver os Estados Unidos infligirem uma crise na China do que o inverso, o impacto de uma eventual agudização do clima de tensão comercial entre as duas maiores economias mundiais seria claramente negativo para os dois países. É aquilo a que se pode chamar um jogo de soma negativa em que ninguém sairá a ganhar.

As potenciais consequências do protecionismo

A tarefa de desglobalizar um mundo crescentemente globalizado – e que parece viver de um populismo político que prolifera à escala global – é difícil. As consequências são por enquanto imprevisíveis, ainda que o desfecho esperado possa provavelmente ser mais negativo do que positivo no longo prazo para toda a economia mundial.

A outra consequência negativa do protecionismo reside naturalmente numa subida da inflação, o que obrigaria os bancos centrais a subir taxas de juro de forma mais significativa e rápida, acarretando este fator um impacto negativo sobre o nível de avaliação das ações, que se tornariam menos atrativas face aos ativos sem risco.

 

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